O MELHOR DE MIM

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Indo pra casa, no ônibus, me deparo com um senhor velhinho, velhinho, com um coração tatuado com um nome no braço: uma tatuagem antiga, já fraquinha na pele. Para quem será que ele tatuou aquele coração? Para a esposa, uma namorada que marcou sua vida, um amor não correspondido? Quem será que ele amou, será que abriu mão de alguém como eu abri mão de você? Esses pensamentos vieram para casa comigo.

Os últimos dias de férias estavam se aproximando e eu já estava irritada em um ponto ao qual nem eu mesma me aguentava. Eu não queria ver você de novo, não queria. Gostaria de poder passar esses próximos três anos vivendo minha vida sem ter de saber sobre você, sobre ela. A dor, que antes me consumia, com o passar desses meses tinha virado uma normalidade que nem percebia mais. Me agarrei a ela, porque foi o que sobrou de nós.

Mas também, eu queria ver você, assim, em instantes aos quais ninguém perceberia que estou ali, olhando, sem olhares alheios, sem julgamentos, sem culpa, porque não tem problema algum em olhar, ver que você está bem e feliz apesar de doloroso, é o que importa. Afinal, é isso que o amor significa: ele não é egoísta, o amor é sobre deixar a outra pessoa livre para ser feliz mesmo que não seja com você. Foi o que eu fiz, apesar de pensar todos os dias antes de dormir em como eu fui capaz de te entregar assim, sem ao menos lutar um pouquinho. Não, eu não lutei, mas eu quis ter lutado, quis muito. Não lutei, porque eu estaria remando contra a correnteza, sozinha. Por que você não se permitiu dar uma chance para algo tão bonito que estava acontecendo, por que você concordou que não era o momento certo, por que você me deixou ir. Você me deixou ir.

A dor, ela voltou, está viva, forte e aqui estou, indo ao lugar onde devo ir praticamente todos os dias, me preparando para a rotina que terei por mais não sei quantos meses. Ah, eu pintei as unhas de vermelho, você gosta delas assim e estou torcendo para que você repare nelas logo. Porque você repara.

Enquanto todos focam no quadro, eu presto atenção em você, assim, como você fazia comigo e eu nem percebia, a única diferença é que não tenho talento para desenhar. Tinha esquecido do quanto eu gosto do teu olhar sério, compenetrado… Até parece que está mesmo prestando atenção na aula, quando se vira de repente para mim e finjo que estou olhando para algum lugar aleatório. Ufa, foi por pouco.

Eu ainda sinto o teu cheiro e o toque das tuas mãos nas minhas como se você estivesse aqui, comigo agora. E, por mais que eu procure em outro, o teu abraço é único no mundo inteirinho, é onde me encaixo perfeitamente, como se eu sempre pertencesse a ti. É onde permaneço, sem querer ir embora.

Eu não vou perder isso, eu não quero ser como aquele senhor do ônibus que estava ali sozinho, com sua tatuagem. Se ele a deixou, se ele não lutou… Eu não quero ser como ele. Apesar de tudo, apesar de eu ter te dito que não, eu acredito na história de “O Melhor de Mim” e vou aguardar um reencontro futuro. Por que aquela não foi a última vez. Não foi.

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